O profissional de psicologia no mundo do esporte

Escrito por em 18 de março de 2019

Uma visão holística sobre como atua esse profissional no mundo do futebol, seus desafios e a sua importância

A modernidade chegou ao futebol. O trabalho com os atletas, que outrora era baseado e limitado a questões táticas, malícia, futebol moleque e ginga, transcendeu e entrou em campos que muitos de nós não imaginávamos a existência e importância. Vimos a chegada dos assessores, os empregados, médicos, fisiologistas, massagistas, roupeiros, podólogos… Caraca! Muita coisa para uma cabeça só, que por vezes, pode entrar em parafuso, quando toda essa rotina entra em conflito com a pressão que o torcedor exerce sobre o atleta, e sobre a cobrança dele em si próprio.

Em tempos em que o torcedor vira as costas para o fato de existir um ser-humano representando sua instituição, entra o trabalho do “remodelador de personalidade”, “bombeiro de sentimentos”, ou simplesmente, psicólogo. Para quem acha que a cabeça só serve para cabecear para o gol, se engana. A saúde mental é tão ou até mais importante do que a física. A citação “uma mente sã num corpo são”, do latim “Mens sana in corpore sano”, escrita por Décimo Júnio Juvenal, nunca foi tão verdadeira nos dias atuais.

Diferente do psicólogo clínico, o profissional inserido na área esportiva vive um cotidiano muitas vezes, diferente dos consultórios. Como? Eduardo Cillo, psicólogo do esporte, Doutor em psicologia experimental formado pela USP, e com passagens por Botafogo e Palmeiras, explica: “Tudo depende muito do tipo de atuação. Existem psicólogos do esporte que trabalham no próprio consultório atendendo atletas, o que seria uma psicologia clínica do esporte, o que não é diferente do psicólogo clínico comum. E existem aqueles que trabalham como consultores, ou que trabalham dentro de clubes. Esses costumam acompanhar a rotina e a programação do clube ou do time, então depende exatamente daquilo que acontece no dia-a-dia. Alguns ficam só no Centro de Treinamento, outros já ficam tanto no CT, como acompanham o time em dias de jogos e viagens, ficando na concentração junto com a comissão técnica. Depende muito do tipo de contrato que ele tem, e da expectativa do clube e da liberdade que ele tem no seu local de trabalho.”

Eduardo Cillo: “O futebol não dá ao profissional de psicologia a compreensão de que psicologia no esporte tem o foco no rendimento, na performance, e que é um serviço absolutamente comum e normal em outros lugares do planeta. Aqui nós ainda temos muito preconceito.”

Eduardo também salienta: “Imagine um psicólogo que trabalhe no clube, que ele está sempre pronto, esperando a entrada dos jogadores. Esse é o momento que algumas rotinas são cumpridas, como medir o peso, o teste de lactato, toda aquela parte do departamento médico de prevenção e recuperação. Essa é uma oportunidade para interagir com os atletas, seja em uma sala própria ou circulando entre os espaços das salas de musculação, DM, enfim, aonde quer que os jogadores estejam. Depois, é possível acompanhar o treinamento dentro de campo e, por fim, você consegue ver aqueles atletas que, por ventura, possam depois do treinamento, procurar por uma assistência psicológica. É possível também, dependendo do tipo de atuação, programar atividades de grupo que se encaixem na programação, como dinâmicas, palestras, etc.”

Uma das tarefas desse profissional é mapear o perfil do jogador profissional ideal. Com base nisso, o profissional analisa cada atleta, buscado os seus pontos fortes, e os pontos fracos que devem ser trabalhados. Esse trabalho, recomendavelmente, deve ser feito na pré-temporada. Ele se intensifica com o avanço das competições, até o momento em que o time chega na disputa de um título. A vantagem será de quem estiver neutro a pressão estabelecida pela torcida, e a receita de sucesso é fazer com que os atletas se foquem no que é preciso ser feito, independente da importância do jogo.

Sobre a questão de, aparentemente, alguns jogadores não demonstrarem que tem problemas psicológicos, Eduardo chama a atenção sobre como muitas vezes, vemos os jogadores, e como eles acham que devem se comportar perante a torcida: “Estamos lidando com pessoas de que, de uma certa forma, vestem a imagem de um herói. O herói é forte, não tem fragilidades ou não quer aparenta-las. Então, aceitar a ajuda de profissional de psicologia do esporte, muitas vezes, é admitir fraquezas. E isso pode gerar problemas, se não junto aos outros atletas, em relação a ele mesmo, a imagem que ele tem de si próprio, o fato de ele se sentir fraco, incapaz… Não é uma questão de que o atleta não precise de ajuda, é pura e simplesmente que eles podem não aparentar. Mas, nos bastidores do dia a dia do clube, como o profissional está bem integrado a comissão técnica, essas diferenças diminuem, as dificuldades e barreiras caem por terra, e a procura costuma ser constante e até frequente, tanto do atleta pelo psicólogo, como do psicólogo pelo atleta, sempre para dar orientações, e garantir o seu espaço de atuação.”

Mapear o perfil dos atletas, talvez seja o trabalho mais fácil nessa empreitada. Porém, dar aos atletas o conforto e a segurança necessária, e também frear todas as possíveis expectativas exageradas que eles, ou seus próximos, possam gerar sobre seu futuro e futebol, talvez seja o trabalho mais minucioso e necessário desse profissional. Afinal, o futebol movimenta cifras astronômicas, e uma vez que um jogador é comprado por um valor alto, seja na moeda local ou estrangeira, a cobrança para fazer valer o valor investido é imposta. Isso acontece com jogadores do nosso elenco atual, como Deyverson, Borja, Juninho, Carlos Eduardo, e tantos outros que, no passado foram comprados por valores considerados altos, hoje são questionados se valiam exatamente aquilo que lhes foram investidos.

 “Antes de mais nada, o próprio profissional precisa manter o seu foco para não se sentir pressionado. Para fazer com que esse jogador renda como qualquer atleta, venha ele da base com um investimento menor, ou venha ele de um clube como uma grande contratação, é importante ajudá-lo a entender o que está acontecendo em sua volta, identificar o que está dificultando a sua adaptação, e buscar soluções. Então, ficar com o avaliável do alto investimento, e da cobrança versus expectativa em volta, não é algo que ajuda. É preciso manter o foco na tarefa, da preparação, na disputa dos jogos.”

JUSTIFICATIVA PARA UM MAL DESEMPENHO?

Muitos geralmente se perguntam se essas questões de estima, confiança, segurança, e tantas outras que assolam essa geração dos “millennials”, não seriam apenas uma desculpa para justificar um momento de irregularidade. Em uma época aonde boa parte da população coloca a saúde mental como uma das últimas coisas a serem tratadas, que considera que casos que o isolamento são frescura, e que os estádios de futebol são vistos como sua segunda casa, é completamente plausível que todas essas questões sejam desconsideradas.

Pegue então todo esse cenário, e imagine um atleta que esteja passando por um momento delicado em sua passagem pelo clube, e que torcida, comissão técnica e ele mesmo, saibam que seu rendimento é bem maior, e que o que ele entrega atualmente é considerado insatisfatório. Se fisicamente está tudo bem, talvez seja a hora de procurar um profissional da área de psicologia. Caso não procure por alguma das razões citadas acima, a carreira do jogador pode ser seriamente afetada. “Um atleta, quando comprometido psicologicamente, pode sim ter sua carreira afetada, principalmente se ele tiver destemperos, mudanças de comportamento abruptas, se ele for um cara muito emotivo… Vemos isso acontecer muitas vezes dentro do campo e em jogos dos mais diferentes esportes. Isso pode prejudicar a imagem do atleta, e assim ele pode perder o seu espaço no time. Claro, tudo isso depende do técnico e o resto da comissão técnica que acompanha e conhece o jogador. Ele mesmo pode acabar perdendo o foco daquilo que ele precisa fazer, e quando isso ocorre, é muito fácil com que ele se perca na noite e em prazeres mundanos, a ponto de que isso afete o seu rendimento”, explica Eduardo Cillo.

Eduardo Cillo: “A cabeça é uma parte integrada do corpo, que chuta uma bola, que faz um desarme. É importante que ela esteja focada”

É notório que o conflito de gerações, principalmente para quem se acostumou a acompanhar um esporte aonde Edmundo fazia gol e rebolava na frente de adversário, Romário fazia hat-trick pra curtir o carnaval no Rio de Janeiro, Luxemburgo chamava Godoi de “São Paulino querendo me f*der”, e tantos outros momentos nostálgicos que hoje nos fazem dar boas risadas, se apresenta para os mais velhos. Porém, é válido entendermos que, os carros mudaram, a tecnologia avançou, as cidades cresceram, e os seres humanos convivem com uma nova geração, muitas vezes mais vulneráveis aos golpes que a vida dá, e que não tem o preparo necessário para absorver e lutar contra as rasteiras que a vida lhe dá.

Tudo hoje está na palma da mão dos jogadores que hipnotizam seus fãs na frente do futebol. Se um jogador, mesmo que indiretamente, dita aquilo que seu filho possa querer calçar na hora de jogar sua bolinha, hoje ele precisa se preocupar se os resultados dentro de campo irão ser satisfatórios, se o que ele apresenta taticamente é suficiente para cavar a vaga de titular, se o que ele faz e sua imagem são vantajosas para seu patrocinador, se as contas da casa estão pagas, se os filhos estão sendo bem-educados na escola, se ele é um pai presente… Um turbilhão de pensamentos que cada jogador possa ter nos dias de hoje.

A pressão por ter (ou aparentar) ser seguro e confiante nessas áreas, é quase uma obrigação. Não são todos os jogadores que podem ter a postura de um Cristiano Ronaldo, que é sempre seguro e suficiente de si próprio e confia em suas habilidades. Muitos acabam caindo na pressão que sofrem das arquibancadas, do que ouvem nas ruas, do que leem nos grupos de WhatsApp e nas postagens sobre eles nas redes sociais. O apoio nem sempre é dado de bom grado, e quando as cornetas soam e os memes aparecem ironizando um momento que é natural de todas as pessoas passarem, a reação nem sempre é aquela que os torcedores querem.

Quando perguntado sobre toda essa influência que o advento das redes sociais traz no mundo dos esportistas, Eduardo é bem claro: “É um complicador. Posso dizer, sem sombras de dúvidas, que é um complicador. Muitos atletas estão sujeitos a estarem no controle de suas redes sociais, querendo ganhar likes e administrar a sua própria imagem. Se esse atleta não tiver uma boa rede de apoio, um bom assessor que cuide, filtre, tanto directs quanto os próprios likes, ele pode acabar se perdendo e perdendo seu principal objetivo, que deveria ser o de treinar e jogar. Tudo isso que vem das redes sociais, que deveriam ser secundárias na vida deles. Então, acho que isso afeta muito, muito, todos os atletas que passam por esse cenário.”

Fato é que todos nós sabemos aonde fica nosso Calcanhar de Aquiles. O que pode ser algo muito simples para um, pode ser o maior medo para o outro. E por termos o grande talento de potencializar aquilo que tememos, o processo de sabotagem de desempenho se inicia. E nenhum torcedor comum consegue ver isso. Só vê aquele que sofre junto, que está perto, que vê todo o processo e todas as dores que o atleta sente.

TEMPO. ELE É A CHAVE PARA TUDO!

Sim, eu entendo que essa frase possa parecer clichê. Porém, “estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo”, já dizia Cora Coralina. Ele é o senhor da razão, mostra respostas, esclareces dúvidas… Enfim, o ser-humano precisa que seja dado o seu devido tempo, e ele é essencial no trabalho do profissional de psicologia do esporte.

“Tempo é importante? Sim. É importante para que você possa conhecer a individualidade de cada um, para que você possa conhecer o funcionamento desses indivíduos em grupo, para que você possa intervir de forma a tirar o melhor de cada um, e integra-los a de modo que, você consiga transformar um grupo em equipe, que são estágios diferentes de organização de um coletivo de pessoas. Só que nós não temos esse tempo no esporte. Isso não acontece somente no futebol. Então, é preciso que o profissional de psicologia rapidamente entenda que as intervenções precisam que ser pontuais, que ele deve aproveitar todos os momentos e oportunidades que ele tiver… Provavelmente, ele não terá um consultório, dificilmente ele terá uma sala para uma conversa privativa. Então, ele terá que conversar sempre indo para o campo de treino, voltando do campo de treino, achando algum espaço entre a rotina do jogador dentro do clube, ou em uma conversa numa viagem de concentração, as vezes no próprio ônibus ou no avião… Enfim, aproveitar todas essas oportunidades que existem, porque são essas as brechas que a gente acaba tendo para trabalhar. Se tiver uma sala, o que é muito raro, melhor. Mas, no geral, isso não existe.”

Mesmo assim, não é somente o tempo que não é concedido ao profissional de psicologia. A compreensão do desenvolvimento do trabalho também não é oferecida, como explica Eduardo. “Outro fator que o futebol não dá ao profissional de psicologia, é a compreensão de que psicologia no esporte tem o foco no rendimento, na performance, e que é um serviço absolutamente comum e normal em outros lugares do planeta, e que aqui nós ainda temos muito preconceito. Hoje estamos, mais ou menos, em algum lugar da metade do caminho da compreensão dos profissionais de futebol sobre a necessidade de manter um profissional de psicologia na comissão técnica, como já aconteceu no passado com o nutricionista, aconteceu até mesmo com preparador físico e com fisioterapeuta. Entender que o funcionamento da cabeça não é frescura é essencial. A cabeça é uma parte integrada do corpo, que chuta uma bola, que faz um desarme… É importante que essa cabeça esteja focada, e para isso, o profissional de psicologia do esporte, precisa ter um preparo adequado para ajudar o atleta e ajudar os membros da comissão técnica no sucesso da busca dos objetivos do clube.”

Chegamos assim, a conclusão de que o futebol precisará mudar, como já está mudando. O tempo precisa ser concedido ao treinador, ao jogador, a comissão técnica e ao profissional de psicologia do clube. É claro que, quando um jogador é contratado, se supõe que o setor de análise e desempenho do clube tenha entendido que o rapaz tem o conjunto de qualidades e habilidades necessárias que possam ser usufruídas pelo clube. Porém, é quase impossível mapear ou descobrir, no ato da contratação, como o jogador irá reagir na chegada a um clube de massa e expressão, seja ele de fora ou do seu país de origem. Nosso entendimento é de que, a cada ano que passa, o planejamento e a profissionalização dos clubes cada vez mais serão exigidos, e isso deve ser cobrado por toda a nossa torcida, antes até mesmo do que a cobrança em cima dos jogadores, que são vítimas indiretas de um processo que, muitas vezes, é amador da parte de certos clubes de futebol, que não desenvolvem um projeto sério e profissional, e acabam com a carreira de jogadores, sejam elas promissoras ou não, e a histórias de clubes muito tradicionais.

Sobre Eduardo Cillo

Eduardo Cillo é psicólogo do esporte e doutor em psicologia experimental. É formado pela USP, e trabalhou em clubes como Botafogo e no nosso Palmeiras, no ano de 2016. Teve papel fundamental na retomada para nosso titulo Brasileiro, pois intensificou seus trabalhos após aquela sequência negativa contra Nacional, Grêmio Osasco Audax, RB Brasil e Água Santa, logo quando Cuca assumiu a equipe. Rafael Marques foi um de seus pacientes, tanto no Botafogo como no Palmeiras.

Caso tenha surgido dúvidas sobre o tema, ou tenha perguntas sobre algo que tenha despertado durante a leitura, você pode contacta-lo pelo e-mail [email protected], ou pelo instagram @eduardo_cillo.

Deixamos aqui, um vídeo que Cillo que explica sobre como funciona a psicologia na comissão técnica.


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